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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Divergente, Veronica Roth



Sinopse: Numa Chicago futurista, a sociedade se divide em cinco facções – Abnegação, Amizade, Audácia, Franqueza e Erudição – e não pertencer a nenhuma facção é como ser invisível. Beatrice cresceu na Abnegação, mas o teste de aptidão por que passam todos os jovens aos 16 anos, numa grande cerimônia de iniciação que determina a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas, revela que ela é, na verdade, uma divergente, não respondendo às simulações conforme o previsto.
A jovem deve então decidir entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é.
E acaba fazendo uma escolha que surpreende a todos, inclusive a ela mesma, e que terá desdobramentos sobre sua vida, seu coração e até mesmo sobre a sociedade supostamente ideal em que vive.

Divergente é um livro muito interessante. Mesmo entre os clichês inevitáveis das distopias YA da atualidade, a obra de Veronica Roth consegue ser diferente. Disseram-me que não é bem assim, que Divergente é muito parecido com Jogos Vorazes, mas, não sei dizer, ainda não li os livros de Suzanne Collins.

Me entreti muito durante a leitura, é um tipo de trama que prende a atenção, contagia. Tris, a protagonista não é fraca, medrosa e cheia de aflições adolescentes, pelo contrário, é corajosa, destemida, humana, tem bom senso e não cai no ridículo. É uma divergente, apresenta um tipo raro de personalidade: apresenta aptidão para mais de uma facção, enquanto a maioria da população se enquadra em apenas uma.

 Uma das coisas que mais gostei durante a leitura, foi a ideia de opressão da sociedade que Roth utilizou.

“Há décadas, nossos antepassados perceberam que a culpa por um mundo em guerra não poderia ser atribuída à ideologia política, à crença religiosa, à raça ou ao nacionalismo. Eles concluíram, no entanto, que a culpa estava na personalidade humana, na inclinação humana para o mal, seja qual for a sua forma. Dividiram-se em facções que procuravam erradicar essas qualidades que acreditavam ser responsáveis pela desordem no mundo.” Pág. 48

“Os que culpavam a agressividade formaram a Amizade. Os que culpavam a ignorância se tornaram a Erudição. Os que culpavam a duplicidade fundaram a Franqueza. Os que culpavam o egoísmo formaram a Abnegação. E os que culpavam a covardia formaram a Audácia.” Pág. 48-49

Percebam o diferencial dessa distopia: uma sociedade cujos valores se baseiam na diferença e semelhança entre a personalidade humana. Grupos foram divididos com base nessas semelhanças e diferenças, pois  acreditavam que esses fatores resultavam na desordem. Gostei, gostei bastante!

Os personagens também são diferenciados, apesar da presença típica do mocinho (que arrebata o coração da mocinha) e do vilão (que quer matar a mocinha). É gratificante, para o leitor, o fato de Veronica ser uma escritora iniciante e conseguir expressar essas múltiplas personalidades tão bem nos personagens. Os personagens da Audácia, mesmo pertencendo à mesma facção, não possuem a mesma personalidade, um é mais arrogante, outro presunçoso, outro corajoso e outros que diante de tanta demonstração de coragem se mostram covardes. Cada um é único e repleto de facetas, acredito que no fundo, todos são divergentes.

A narrativa é simples e rápida, repleta de ações, conspirações e tem uma pitada de romance. Apesar disso,  é um pouco fragmentada. Percebe-se que Veronica Roth é uma escritora iniciante, que ainda está aprendendo a utilizar estilística e recursos narrativos, mas, isso não é empecilho. A tradução é ótima e o livro foi bem revisado, a leitura flui tranquilamente. O final é instigante e deixa curiosidade de sobra para o próximo livro da trilogia: Insurgente.

 Gostei muito e indico sem pensar duas vezes. Pare o que está fazendo e vá ler Divergente.


Nota: 4 ( de 0 a 5 - sendo: 0-péssimo, 1-ruim, 2-regular, 3-bom, 4-muito bom e 5-excelente).


PS: Já li o segundo livro da trilogia e farei a resenha em breve.

sábado, 8 de junho de 2013

A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra, Robin Sloan



Sinopse:  A recessão econômica obriga Clay Jannon, um web-designer desempregado, a aceitar trabalho em uma livraria 24 horas. A livraria do Mr. Penumbra — um homenzinho estranho com cara de gnomo.
Tão singular quanto seu proprietário é a livraria onde só um pequeno grupo de clientes aparece. E sempre que aparece é para se enfurnar, junto do proprietário, nos cantos mais obscuros da loja, e apreciar um misterioso conjunto de livros a que Clay Jannon foi proibido de ler.
Mas Jannon é curioso...


A leitura de "A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra" (Novo Conceito, R$ 29,90) foi uma experiência muito agradável e singular. Une o que todo bibliófilo ama: um livro sobre livros, livrarias e bibliotecas.

O livro é narrado em primeira pessoa por Clay Jannon, um web designer desempregado que acaba se tornando livreiro de uma livraria 24 horas, cujo nome é A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra. Penumbra é o dono da livraria e um personagem cativante, um dos mais curiosos e impressionantes do livro. Mas, ser livreiro  do Mr. Penumbra não é uma tarefa tão fácil, uma vez que a livraria esconde segredos e Clay não consegue lidar com sua curiosidade.

Assim, Clay tenta durante toda a narrativa desvendar o mistério da livraria, que cada vez fica mais nítido e ao mesmo tempo mais distante.

A leitura é contagiante, li em uma tarde! O livro é muito bem escrito, com ótimas tiradas. Robin Sloan não escreve com amadorismo, sabe o que faz e sabe o que fazer para prender o leitor durante toda a trama. Esta, por sua vez, tem mistério, conspirações, tecnologia, livros e romance, um prato cheio.

Os personagens são bem desenvolvidos, gostei de todos, destacando a Kat Potente, uma das personagens mais nerds de toda a literatura.

A Livraria 24 horas do Mr. Penumbra mostra como os livros são mais do que aparentam ser, além disso, abre um leque de reflexões sobre a introdução da tecnologia em nossas vidas. O final é simples e gracioso, como uma lição de moral, voltando nossa atenção para o que torna nossas vidas mais significantes.

segunda-feira, 11 de março de 2013

O Xangô de Baker Street, Jô Soares





Sinopse da editora: Um violino Stradivarius desaparecido, algumas orelhas cortadas e seus respectivos cadáveres trazem o famoso Sherlock Holmes ao Brasil, por recomendação de sua não menos famosa amiga Sarah Bernhardt. Porém aquilo que parecia um pequeno e discreto caso imperial transforma-se numa saga cheia de perigos, tais como feijoadas, vatapás, mulatas, intelectuais de botequim, pais-de-santo e cannabis sativa. Sem falar, é claro, dos crimes do primeiro serial killer da história, que executa seu sinistro plano nota a nota, com notável afinação e precisão de corte.
O britânico e intrépido detetive e seu fiel e desconfiadíssimo esculápio vivem então no Rio de Janeiro a aventura de Sherlock Holmes que Conan Doyle se excusou de contar - por motivos que ficarão bastante óbvios -, mas que para felicidade do leitor brasileiro Jô Soares resgata neste romance implacável e impagável.





O Xangô de Baker Street (Companhia das Letras, R$ 58,00) foi o primeiro livro do Jô que li. Sempre gostei do programa do Jô, mas nunca tive interesse por seus livros, que misturam criminalística com humor. Comprei o box da Companhia das Letras com os quatro livros do apresentador, uma vez que pretendia ler todos no mês de fevereiro para o Desafio Literário. Li este e As Esganadas. Me apaixonei. Ri muito.

Jô Soares não é nenhum gênio literário, mas seus livros são bem escritos, divertidos, detalhados na medida certa e impactantes. Prendem a atenção do leitor. As tiradas são incríveis, inteligentes. Jô sabe arrancar gargalhadas do leitor.

Em O Xangô de Baker Street, Sherlock Holmes vem ao Brasil, para o Rio de Janeiro, acompanhado de Watson para descobrir quem roubou um violino Stradivarius de uma das amigas íntimas do Imperador Dom Pedro II. Chegando por essas bandas, envolve-se em outro mistério: há um assassino perambulando pela cidade. Este, mata mulheres atraentes, arranca suas orelhas e deixa como lembrança uma corda de violino envolta nos pêlos pubianos dos cadáveres. Holmes só precisa descobrir quem é o tal assassino, e para isto, conta com a ajuda do delegado Pimenta.

Personalidades famosas, como Chiquinha Gonzaga e Oswald de Andrade são personagens cativantes na obra de Jô e além de enriquecerem a narrativa, também são suspeitos. A culinária e paisagens do Brasil também são bem trabalhadas no livro.

Acredito que o Sherlock de Jô é mais atrapalhado e excêntrico do que o original de Doyle, mas, mesmo assim, é irressistível.

Leiam!

domingo, 10 de março de 2013

Adormecida, Anne Sheehan


Sinopse: Rose Fitzroy esteve dormindo por décadas. Imersa num sono induzido, esquecida em um porão por mais de 60 anos, a jovem foi tratada como desaparecida enquanto os anos sombrios pairavam sobre o mundo. Despertada como que por encanto e descobrindo ser herdeira de uma corporação multimilionária, Rose vai entendendo pouco a pouco, tudo o que aconteceu em sua ausência.
Ela descobre que seus pais estão mortos. O rapaz por quem era apaixonada não é mais que uma mera lembrança. A Terra se tornou um lugar estranho e perigoso, especialmente para ela, que terá de assumir seu lugar à frente dos negócios.
Desejando adaptar-se à nova realidade, Rose só consegue confiar numa única pessoa estranhamente familiar. Rose até gostaria de deixar o passado para trás, no entanto, ao pressentir o perigo, percebe que precisa enfrentá-lo ou não haverá futuro.


Anne Sheehan fez algo inovador em Adormecida. Transformou a ideia central do conto da Bela Adormecida em algo pretencioso e distópico.

Rose fica anos em extase, um tipo de sono induzido a partir de uma cápsula protetora, (me lembrei do Sayoran em Tsubasa Chronicle, mas não vem ao caso) e é despertada por engano, quando um residente do condomínio tropeça na sua cápsula, perdida numa sala há anos, e faz a reativação por engano.

A narrativa é em primeira pessoa, como na maioria dos YA. Rose narra sua infância e conta suas experiências precoces com a cápsula de sono, sua relação com os pais e seu relacionamento com Xavier, um menino que viu nascer e se tornou seu namorado, antes de despertar, é claro.

Rose sempre ficou muito tempo em extase. Seus pais viajavam e a colocavam na cápsula, iam para uma festa e a entubavam, como uma mãe coloca um filho para dormir, só que de um jeito macabro. Rose ficava semanas, meses e até anos em extase. Até que um dia, os pais não voltaram para despertá-la e ela acordou 70 anos depois, percebeu que todos estavam mortos e que ela era herdeira de um imperío milionário.

Ambicioso? Sim.

Além da premissa de um conto futurista, Adormecida tem a pitada certa de distopia misturada com FC adolescente: romances, tecnologias inovadoras, sistema dominador, alienígenas que sofrem opressão etc.

Bem desenvolvido? Em partes.

Anne Sheehan deixa espaço para continuações. Adormecida é a introdução. Somos apresentados a Rose e descobrimos seu passado e suas dificuldades em lidar com o presente. No final da narrativa, concluimos que Adormecida é o primeiro livro de uma série. Espero que a continuação não demore muito, uma vez que foi a curiosidade que surgiu ao final da leitura que me conquistou.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Household Stories, Jacob and Wilhelm Grimm



          A coletânea de contos dos Irmãos Grimm encanta pela nostalgia presente nas narrativas.  Os Irmãos começaram recolhendo contos de fadas entre seus familiares, que eram narrados oralmente.Depois, criaram suas próprias versões e logo conquistaram leitores de todas as idades.

As versões de “Chapeuzinho Vermelho”, “João e Maria” e “A bela adormecida” que a maioria das crianças escuta antes de dormir é muito distorcida dos contos originais. Lendo a versão original de Jacob e Wilhelm Grimm pode-se notar que os contos, em sua maioria, não têm nada de infantil, pelo contrário, são brutais e possuem uma nota de aviso. Como por exemplo, se você for maldoso e inescrupuloso terá um fim lamentável. Ou se você se deixar levar pelas aparências, não cumprir uma promessa e demonstrar excesso de inocência será punido igualmente.
Rumpelstiltskin é um conto perturbador, no qual tudo gira em torno da cobiça. Um moleiro mente para o rei dizendo que sua filha transforma palha em ouro e o rei casa-se com moça, pois tem sede de ouro. A rainha se mostra uma mulher irresponsável quando faz o pacto com Rumpelstiltskin, um ajudante do demônio. No início a soberana promete tudo em troca de sua vida, mas quando se vê ameaçada tira proveito da situação. Segundo Maria Tatar,  Rumpelstiltskin nos mostra como a palha do trabalho doméstico pode ser transformada no ouro que prende o coração de um rei, além disso, diz que o protagonista é uma figura heroica que demonstra compaixão, por isso pode ser visto em várias versões como um gnomo que escapa do palácio e não em gnomo que é rasgado em dois quando seu nome é revelado.
Os cenários e objetos encontrados nos contos também significam muito. Uma floresta escura, que guarda em seu interior uma torre com uma donzela de longos cabelos representa separação, uma vez que Rapunzel só encontra a felicidade quando se separa dessa floresta e passa a habitar o mundo exterior. Em “O Rei Sapo” a bola que cai no poço representa o desejo de brincar, ou seja, um princípio de prazer, que é substituído ao longo do conto pelo processo de amadurecimento dos anseios e sentimentos da princesa; esta por sua vez quebra uma promessa, mas salva seu pretendente de um feitiço.
Em suma, Household Stories é uma leitura extremamente válida. A simbologia usada pelos Irmãos Grimm é bem dosada, a narrativa é bem escrita, as metáforas são marcantes e as histórias, encantadoras, ainda que um tanto macabras.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Anna e o Beijo Francês, Stephanie Perkins



Sinopse da editora:  Anna Oliphant não está nada entusiasmada com a ideia de se mudar para Paris. Porém, seu pai, um famoso escritor norte-americano, decidiu enviá-la para um colégio interno na Cidade Luz. Anna prefere ficar em Atlanta, onde tem um bom emprego, sua fiel melhor amiga e um namoro prestes a acontecer. Mas, ao chegar a Paris, ela conhece Étienne St. Clair, um rapaz inteligente, charmoso e bonito, que além de muitas qualidades, tem uma namorada...
Anna e Étienne se aproximam e as coisas ficam mais complicadas. Será que um ano inteiro de desencontros em Paris terminará com o esperado beijo francês? Ou certas coisas simplesmente não estão destinadas a acontecer?


Anna, a protagonista, é enviada (contra à vontade pelo pai) para um colégio interno em Paris. E é em Paris, a cidade maravilhosa, o local em que Anna descobre o amor, faz amigos e vive a vida, com suas alegrias e desapontamentos.

Anna e o Beijo Francês (Novo Conceito, R$ 24,90) é um YA bem leve e descontraído. Stephanie Perkins não é uma escritora ambiciosa e visionária, sua narrativa é pobre, nada de maravilhosamente bem escrita, mas, ao mesmo tempo é simples e divertida. É o tipo de livro que você termina e pensa "Uau! Que história fofa!". Não tem como não torcer para a amizade de Anna e St. Clair, seu melhor amigo, se tornar algo mais.

No início da leitura pensei que fosse mais um livro com romance açucarado e dramático, mas não é. É fofo e só.

Estou um pouco cansada das protagonistas de romances YA, parece que os pré-requisitos de todas são a insegurança e a chatice. Anna é um pouco insegura, mas não do tipo que dá vontade de matar.

Enfim, o livro é bom  para descansar a mente de leituras mais complexas.

Vou resenhar mais alguns YA que li em janeiro e depois vou dar um tempo nas leituras desse segmento.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Sentido de um Fim, Julian Barnes (DL 2013)



"Nós vivemos no tempo - ele nos prende e nos molda -, mas eu nunca achei que entendia isso muito bem. E não me refiro a teorias de como ele se dobra e volta para trás, ou se pode existir em outro lugar em versões paralelas. Não, eu me refiro ao tempo comum, rotineiro, que os relógios nos mostram que passa regularmente: tique-taque, clique-claque. Existe algo mais plausível do que um segundo ponteiro? E, no entanto, basta o menos prazer ou dor para nos ensinar a maleabilidade do tempo. Algumas emoções o aceleram, outras o retardam; às vezes, ele parece desaparecer - até o ponto final em que ele realmente desaparece, para nunca mais voltar."

(O Sentido de um Fim, Julian Barnes, Rocco, R$ 24,00, p. 09)

Comecei a leitura d`O Sentido de um Fim em dezembro, mas só terminei de ler na primeira semana de janeiro, então, vou considerá-lo uma leitura de 2013.

A história é narrada pelo sexagenário Tony Webster, que nos conta sua história de vida. Tony inicia relembrando os tempos de escola, época em que conheceu Adrian, um rapaz estranho, dono de uma mente brilhante. Adrian logo passa a fazer parte de seu círculo de amizades, se tornando uma referência para ele e os demais amigos.

O tempo passa, a escola acaba e cada amigo toma seu rumo. Até que um dia, depois de décadas, Tony recebe um aviso de que recebeu uma pequena herança da mãe de sua ex-namorada e um diário de Adrian, que cometeu suicídio aos 22 anos. Na época em que se suicidou, Adrian namorava Verônica, ex-namorada de Tony.

Em meio a todo esse cenário de perdas, de amor X morte, o narrador questiona e relembra o passado a fim de encontrar respostas para o presente.

O Sentido de um Fim foi vencedor do Man Booker Prize de 2011 e dá pra entender o motivo. É um livro e tanto, com um final brilhante.Virei fã de Julian Barnes! Além do mais, sinto que comecei o ano com a melhor leitura que poderia ter, minhas expectativas em relação ao que vou ler durante 2013 serão imensas, pois terão de superar um livro insuperável.


"A história é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas da documentação."
(p.67)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Desafio Literário 2013: Sussurro, Becca Fitzpatrick


Sussurro (Intrínseca, 264 páginas, R$29,90) é o primeiro livro da série Hush Hush, de autoria de Becca Fitzpatrick.
Não foi minha primeira leitura de 2013. Decidi lê-lo para uma reunião de um clube do livro que pretendo participar e aproveitei para resenhá-lo no Desafio Literário 2013.
Sinopse oficial: Nora é uma menina responsável. Aos 17 anos, ela tira boas notas e sempre avisa à mãe aonde vai e o que está fazendo. Nem mesmo garotos a fazem perder o foco nos estudos. Até porque, apesar das tentativas de sua melhor amiga, Vee, de lhe arrumar um pretendente, ela nunca se interessou por ninguém na escola. Pelo menos não até conhecer Patch, seu novo colega na aula de biologia. Ele parece estar em todos os lugares e saber tudo sobre ela. Seu jeito ao mesmo tempo sedutor e perigoso faz com que Nora fique imediatamente intrigada. E encantada.

É então que eventos estranhos começam a acontecer. Um homem usando uma máscara de esqui salta diante de seu carro, seu quarto é invadido e aparentemente alguém está tentando matá-la. Nora não sabe em quem confiar. Quando Vee conhece dois novos rapazes e tenta arranjar um encontro, as coisas só pioram. Nora está assustada a maior parte do tempo. Patch é o da máscara de esqui? Ou será Elliot, o novo garoto com quem Vee quer que ela saia?

Em sua busca por respostas, Nora está prestes a se descobrir no centro de uma batalha ancestral entre seres imortais e anjos caídos - uma disputa que não se resolverá sem sacrifícios.
Nora é a adolescente típica dos YA da atualidade. Tem uma beleza comum, é um pouquinho inteligente, insegura, desconfiada, tenta em vão resistir a seus desejos, se mostra desinteressada no começo da narrativa, mas é fisgada por Patch, seu novo parceiro nas aulas de Biologia. Nora tem uma melhor amiga sem noção, Vee, que mais parece amiga da onça.
Patch, o affair de Nora, é um personagem estranho e não pelo fato de ele ser um anjo que caiu do Paraíso por cobiçar a raça humana. Patch é estranho porque não tem uma finalidade na narrativa. Ele não é bom, tampouco é mal, sua única intenção é cobiçar. Patch cobiça Nora, cobiça os sentimentos da raça humana, cobiça os Nephelim por possuírem poderes divinos e serem humanos, enfim, é cobiça que não acaba mais. Tive a sensação de que a autora tentou deixá-lo atraente para seu público leitor, mas só o que ela conseguiu foi criar um personagem convencido, arrogante e mal construído.
No meio dessa tormenta de sentimentos recém-descobertos, Nora começa a ser perseguida por um estranho com máscara de esqui (oi?). Vee é atacada. E adivinhem quem é o primeiro suspeito? Patch. O bad boy arrogante e misterioso.
Depois, como a própria sinopse mostra, Nora e Vee conhecem dois garotos, Elliot e Jules. As duas logo começam a sair com os dois, até Nora descobrir algo sobre o passado de Elliot e começar a desconfiar dele também. Nesse meio tempo, Nora passa por coisas previsíveis, descobre o passado de Patch, um pouco sobre seu próprio passado e descobre também o grande mistério do livro.
O final é previsível, um pouco antes do desfecho (que é o grande clímax da obra), a autora nos conta um detalhe sobre Patch e a partir daí, o final feliz se torna nítido.
O livro tem seus momentos bons. Gostei de algumas partes específicas, como as do professor de Biologia e o prólogo. A narrativa é rápida, feita somente para entreter e o vocabulário é bem simples.
 Não gostei de como a autora fez uso d’O Livro de Enoch (falar mais sobre ele seria spoiler, então vou deixá-los curiosos).  A partir do momento que Becca citou esse livro deveria ter sido fiel, pois é uma obra que existe, é palpável, independente de ser ou não ficção. E Becca meio que criou uma coisa em cima de outra, distorceu algo daqui, acrescentou ali, enfim, não me agradou.
Também não gostei da narrativa em primeira pessoa. Acredito que só grandes mestres da literatura conseguem a proeza de construir uma narrativa exemplar em primeira pessoa, o que não é o caso da Fitzpatrick. A narrativa desliza por trechos com fluxo da consciência mal elaborados e diálogos fracos.
Como Sussurro é o primeiro livro de uma série, deixa uma boa dose de informações no ar. Dá curiosidade? Até que dá. Tudo que não é dito gera curiosidade. Vou ler o restante da série? Não sei.
Se eu tivesse de dar uma nota de 0 a 5, daria 2, que considero razoável, já que o livro não é de todo ruim.
Para quem gosta da temática de anjos caídos indico O Paraíso Perdido, de John Milton. E para quem gosta de anjos caídos na literatura infanto-juvenil ou YA´s, indico a série Os Instrumentos Mortais, de Cassandra Clare.
E vocês, leram? Gostaram? Não gostaram? Me contem!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, Marçal Aquino



Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Companhia das Letras, R$ 34,00)  me conquistou pelo título incomum e extenso, uma oração completa. Entrou na minha lista de desejos em 2012 e na minha estante após a bienal, mas, só agora em dezembro é que tive a oportunidade de lê-lo. E que oportunidade! Marçal Aquino ganhou uma fã devota!

Sinopse da Companhia das Letras: No momento em que começa a narrar os fatos de Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, o fotógrafo Cauby está convalescendo de um trauma numa pensão barata, numa cidade do Pará prestes a ser palco de uma nova corrida do ouro. Sua voz é impregnada da experiência de quem aprendeu todas as regras de sobrevivência no submundo - mas não é do ambiente hostil ao seu redor que ele está falando. O motivo de sua descida ao inferno é Lavínia, a misteriosa e sedutora mulher de Ernani, um pastor evangélico.

A trajetória do fotógrafo, dado a premonições e a um humor desencantado, vai sendo explicada por meio de pistas: a história de Chang, fotógrafo morto num escândalo de pedofilia; o mistério de Viktor Laurence, jornalista local que prepara uma vingança silenciosa; a vida de Ernani, que tirou Lavínia das ruas e das drogas no passado. Mesmo diante de todos os riscos, Cauby decide cumprir seu destino com o fatalismo dos personagens trágicos. "Nunca acreditei no diabo", diz ele. "Apenas em pessoas seduzidas pelo mal."

É um livro tão curto (232 páginas) que diz tanto que tenho até receio de me estender sobre ele e desmerecê-lo.

A história é narrada por Cauby, um fotógrafo profissional que vai morar numa cidade do Pará, cuja população está envolvida em conflitos com uma mineradora. Lá conhece Lavínia, uma mulher bonita e misteriosa por quem se apaixona e tem um caso. Lavínia é casada com o pastor da igreja local, além disso, sofre transtornos de personalidade e é pura lascívia.

Abaixo, um excerto da primeira vez do casal:


Ela me abraçou e encostou a cabeça em meu peito, bem em cima do meu coração atropelado. E falou apertando as minhas costas:
Entra em mim.
Olhei para a porta do quarto: lá dentro nos esperavam os lençóis enrugados da cama arrumada com pressa e imperícia. Lavínia notou que eu olhava para o quarto e abriu meu cinto.
Sussurrou:
Aqui.
Foi igual adentrar um território sabendo que ele tem dono: com curiosidade e medo. Uma invasão. Lavínia livrou-se das sandálias e deixou que eu a despisse. Depois, tirou as minhas roupas. E acabamos no chão, sobre o tapete. Ela por cima.
Antes de mais nada, porém, o inferno das nossas obsessões. Ela levantou-se e me olhou de um jeito estranho. Achei que tinha mordido seu lábio com furor excessivo. Não era isso: Lavínia tirou a aliança e jogou dentro da bolsa. Disse:
Um pouco de decência não faz mal a ninguém.

(Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, p. 38)



Não é uma narrativa recheada de acontecimentos e floreios, é uma história que poderia ser real, a história de uma paixão arriscada, que teve um final inusitado, ainda que meio trágico.  A narrativa de Aquino aproxima o leitor. Cauby informa logo de cara que algo de ruim vai acontecer com ele, mas conta sua história como se fosse um amigo distante, nos deleitando aos poucos com detalhes de sua infância, de sua vida profissional, seu relacionamento conturbado e ardente com Lavínia, a história da vida da moça e as consequências dessa paixão embriagante.

Considero esse livro uma obra-prima da literatura brasileira contemporânea. Marçal de Aquino, em momento algum põe a narrativa a perder, não deixa lacunas abertas na história, desenvolve a tensão com maestria. A linguagem é direta, sem rodeios e delongas, mas é viciante e poética. Aquino sabe o que faz, escreve com domínio total. Abusa da ironia e das metáforas de um jeito refinado, é a veracidade da narrativa, nua e crua, que prende o leitor durante todo o tempo.

Sem dúvida, minha melhor leitura em muitos anos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Meme Literário de um mês - Dia 04

Dia 04 – Você costuma lê certo livro só porque ele está em voga? Você é do tipo que lê o que todo mundo está lendo só para estar na “moda” ou segue o seu próprio estilo de leitura?


Eu leio o que gosto, o que desejo ler quando desejo ler, independente de estar em voga ou não. É ridículo ler algo só para estar na moda, vejo meus alunos fazendo isso o tempo todo com "As crônicas de gelo e fogo" e "Diário de um banana".
Acho que todos devemos ler de coração aberto, de mente aberta. A leitura não deve ser encarada como um meio de ser aceito em determinado local ou determinada situação, deve ser encarada como algo transformador e engrandecedor, que tira um alguém da condição de ignorante e o transforma em alguém pensante. E uma vez que transforma as pessoas, engrandece a alma.

Até amanhã!


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O Meme Literário de um mês - Dia 03

Dia 03 – Como você escolhe seus livros? Por autor? Por assunto? Pela sinopse? Por uma indicação? Fale sobre isso.


Por tudo, autor, assunto, sinopse e indicação, dependendo de quem indica.

Gosto de ficar atenta aos lançamentos literários, pesquiso nos sites das editoras, leio o primeiro capítulo, leio resenhas, pesquiso preço. Quando sou fã de um autor, como o Neil Gaiman por exemplo, compro só por ser de sua autoria.

Muitas vezes escolho por assunto, foi o caso de "Cidade dos Ossos", da Cassandra Clare, decide comprá-lo por ser um livro de ficção fantástica. A sinopse me agradou, mas o assunto foi o fator principal.

No geral, acredito que o que me leva a comprar um livro é um conjunto de fatores, no qual se destacam:  preço, autor, sinopse e editora.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Meme Literário de um mês 2012 - Dia 02

Dia 02 – Qual foi o último livro que leu e qual é o próximo livro que lerá? Fale um pouco sobre eles.

O último livro que li foi Cotoco - O diário (perversamente) engraçado de um garoto de 13 anos, de John Van de Ruit. John Milton é um garoto que vive em um colégio interno na África do Sul e conta desde seus mergulhos proibidos com os colegas de quarto, suas conversas literárias malucas com um professor até sua primeira paixonite. Nunca ri tanto com um livro, é engraçado demais! Só de lembrar das peripécias do Cotoco já me mato de rir!


Ainda não sei o livro que pretendo ler, estou com uma pilha de livros aqui em casa, entre eles A culpa é das estrelas, Onde habitam os dragões, Desonra e Maya. Acho que vou acabar optando por A culpa é das estrelas, do John Green, é sobre uma adolescente com câncer em estado terminal. Já li o primeiro capítulo e gostei bastante. O Luciano, do blog .Livro fez uma resenha legal, passem lá conferir.



Até amanhã!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O Meme Literário de um mês 2012 - Dia 01


No ano passado participei do meme literário organizado pela Tábata, do blog Happy Batatinha. Foi uma experiência única, relembrei livros e autores, conheci blogs ótimos e me descobri como leitora, uma vez que o meme me fez responder perguntas que nem passavam pela minha cabeça enquanto leitora.

Em 2012, pretendo cumprir esse desafio em outubro. A proposta é responder diariamente e agora que descobri como programar postagens não tenho desculpas para não postar diariamente!

Quem quiser conhecer a proposta do meme e as perguntas do mês, visite o blog da Tábata.

Bom, vamos para a primeira pergunta:

Dia 01 – Que livro você está lendo? Sobre o que é? Onde você está? Você está gostando?

Estou lendo três livros no momento. São eles: 

Cidade dos Ossos, Cassandra Clare - É o primeiro de uma série chamada de "Os instrumentos mortais". Conta a história de Clare, uma adolescente que levava uma vida comum até descobrir que era capaz de ver coisas que os outros humanos não enxergavam. Quando conhece Jace, um nephelim caçador de sombras, mergulha numa aventura para salvar sua mãe e descobrir mais sobre sua própria identidade.
Estou no finalzinho e adorando! No começo achei que seria mais uma cópia deslavada do Harry Potter ou mais um romance teen chato como Crepúsculo, mas é super divertido, leiam!

Nuvens de pássaros brancos, Yasunari Kawabata - Meu primeiro livro de Kawabata. Tem uma narrativa curta, porém rica e poética. A história em si, é pacata. Um jovem órfão guarda na lembrança cenas de seu pai com suas amantes, quando cresce, as cenas não o abandonam e as mulheres do pai se tornam parte de sua vida. Acho que termino de ler hoje, estou quase no final. Até agora estou gostando muito, quero ler mais obras do Kawabata.

A invenção de Hugo Cabret, Brian Selznick - Vi o filme e fiquei morrendo de vontade de ler o livro, mas só agora estou com ele em mãos. Comecei a ler hoje e quase perdi a hora para o serviço. É lindo! As ilustrações fazem parte do texto, ouso dizer que o livro traz mais ilustrações do que texto. A história é a mesma das telonas, Hugo é um menino órfão, vive na estação de trem e rouba peças dos brinquedos da loja da estação para terminar de construir um autômato deixado pelo pai.

Até amanhã!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Frango com Ameixas, Marjane Satrapi



Marjane Satrapi me surpreendeu em fevereiro com Persépolis, que eu resenhei aqui no blog. Desde então, minha vontade de ler mais de suas HQ´s só cresceu mas como tinha outras leituras na fila esperei. Há alguns dias me deparei com Frango com Ameixas  na biblioteca da escola em que trabalho e sem esperar mais, trouxe-o para casa a fim de me lambuzar com ele.

Enquanto Persépolis é a autobiografia da autora, Frango com Ameixas (Cia das Letras, R$ 36,00) é uma história de família, ou melhor, a história trágica do tio avô de Marjane, o músico Nasser Ali Khan. O livro possui uma linguagem fácil e por ser tão marcante é envolvente e impossível de se abandonar pela metade. O traço de Satrapi é muito bonito, apesar de ser extremamente simples.

A narrativa começa com uma discussão na qual a esposa de Nasser Ali quebra seu tar, um instrumento persa de cordas que não era apenas a ferramenta de trabalho do músico, mas também sua vida, sua paixão. Depois do incidente, Nasser Ali procura outro tar, mas não encontra nenhum que lhe proporcione o mesmo som. O músico, cansado da vida, da esposa e dos filhos, decide deitar e esperar que a morte o encontre, o que acontece oito dias depois. Durante os dias em que espera a morte vir lhe buscar, Nasser Ali lembra de fatos e pessoas (uma moça em especial) que passaram por sua vida. 

Frango com Ameixas, ao meu ver, mostra como escolhas erradas podem nos perseguir até nos enlouquecer. Nasser Ali fica preso nas lembranças que o assombram como fantasmas do passado, permanece preso na ideia do homem que poderia ter sido e não foi, filho de uma sociedade onde tudo é negado e angustiado por não ter tido autonomia suficiente para escolher seu destino vê na morte a solução mais fácil para seus problemas.

A HQ, sob a direção de Satrapi virou filme e foi exibido no festival de Toronto. O trailer e outras informações podem ser vistos aqui.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Leituras Mitológicas: O Universo, os deuses, os homens


Jean-Pierre Vernant nasceu na França em 1914. Graduou-se em Filosofia e foi dirigente da Resistência durante a 2ª Guerra Mundial. É um estudioso da mitologia grega há cinquenta anos e publicou mais de quinze livros sobre o assunto.

Mas, o que é um mito grego? O que é mitologia? Segundo Vernant (O Universo, os deuses, os homens, 2010, p. 10) um mito grego é um relato, só precisamos saber como esse relato se originou, se constituiu, se estabeleceu, se transmitiu e se conservou. O autor também afirma que mito e mitologia são palavras ligadas à história e aos traços da civilização. Assim, o mito se apresenta como um relato vindo do fim dos tempos que já existia quando foi contado, além disso, é importante lembrar que os mitos gregos chegaram até nós por estarem sob a forma de textos escritos, os quais pertencem a obras literárias diversas, tais como epopeias, poesias e tragédias e que apenas se mantém vivos até  por serem transmitidos de geração em geração. A mitologia, em uma abordagem simplificada é o estudo desses mitos.

O Universo, os deuses, os homens (Companhia das Letras, R$ 46,50) foi a ideia inicial de Jean-Pierre Vernant de reunir as histórias mitológicas que contava ao seu neto para fazê-lo dormir. No livro, o autor reconta vários mitos gregos, explicando seus significados extrínsecos e ao mesmo tempo,  analisando o ser humano.

O livro é dividido em oito partes: A origem do universo, Guerra dos deuses, reinado de Zeus, O mundo dos humanos, A guerra de Troia, Ulisses ou a aventura humana, Dioniso em Tebas, Édipo, o inoportuno e Perseu, a morte, a imagem.

É uma boa opção de leitura para aqueles que querem conhecer ou até mesmo relembrar os principais mitos gregos.

Agora, um trecho para despertar a curiosidade:

Prometeu é castigado por onde pecou. Quis oferecer aos mortais a carne, e especialmente o fígado, que representou uma víscera de grande valor no animal sacrificado, pois é nesse órgão que se pode ler se os deuses aceitam o sacrifício feito. Agora, por intermédio de seu fígado, Prometeu se torna alimento predileto da águia de Zeus. Essa águia é o símbolo do raio divino, é o porta-fogo de Zeus, fulminante. De certa forma, o fogo roubado pelo Titã reaparece em seu fígado, onde se delicia num festim sempre renovado.
[...] Prometeu é uma criatura ambígua, seu lugar no mundo divino não é claro. A história desse fígado, que é devorado todo dia e que de noite se reconstitui e torna a ser igual a si mesmo, mostra que há pelo menos três tipos de tempo e vitalidade. Há o tempo dos deuses, a eternidade em que nada acontece, tudo já está lá, nada desaparece. Há o tempo dos homens, que é linear, sempre no mesmo sentido, pois o homem nasce, cresce, é adulto, envelhece e morre. [...] Há, por fim, um terceiro tempo, apresentado pelo episódio do fígado de Prometeu. É um temo circular ou em ziguezague. Indica uma existência semelhante à da lua, por exemplo, que cresce, morre e renasce, indefinidamente.
                                                      (2010, p. 76 e 77)

Até a próxima!


domingo, 3 de junho de 2012

Odd e os Gigantes de Gelo, Neil Gaiman



Odd e os Gigantes de Gelo (Rocco, R$ 20,00) é mais um livro do meu amado Gaiman. Nele, pude perceber que Neil tentou escrever algo mais voltado para o público infantil, sem os aspectos góticos que são facilmente percebidos em outras de suas obras, como  Coraline e O Livro do Cemitério.

Odd é um garoto sorridente que vive com a mãe e o padrasto numa vila norueguesa. Seu pai era um lenhador que morreu afogado, tentando salvar alguns pôneis que caíram na água. Depois dessa perda, o garoto pega o velho machado do pai e parte para a floresta onde acaba se acidentando e quebrando a perna.

Uma noite, resolve se mudar para a antiga cabana do pai, que fica no meio da floresta, com muita dificuldade consegue chegar lá e nesse percurso acaba conhecendo três animais que são mais do que aparentam ser, o urso, a raposa e a águia fazem com que Odd mergulhe numa aventura para salvar Asgard, a terra dos deuses nórdicos.

O livro possui 126 páginas e é gostoso de ler, como sempre não tenho o que reclamar de Gaiman, para ele só tenho elogios. Só acho que Gaiman merece uma atenção maior por parte da Rocco, a revisão, por exemplo, poderia ter sido melhor, já que no livro é visível a repetição desnecessária de pronomes e outros termos.

Senti falta das ilustrações do Dave Mckean, mas achei o trabalho de Brett Helquist magistral! A ilustração que mais gostei foi essa do Gigante de Gelo!

                                                                     
Até mais!

sábado, 26 de maio de 2012

O dia do Curinga, Jostein Gaarder


E enquanto fiquei parado ali, observando o céu ir mudando de cor, primeiro cada vez mais vermelho e depois cada vez mais claro, experimentei uma coisa que jamais havia experimentado antes; um sentimento que desde então nunca mais me deixou: lá estava eu na frente da janela da cabine de um navio, eu, um ser enigmático, vivo, mas que apesar disso nada sabia de si. Experimentei a sensação de ser uma criatura viva num planeta vivo dentro de uma Via Láctea.

(O dia do Curinga, pág. 149)


O dia do Curinga (Companhia de Bolso, R$ 27,00) foi o livro vencedor do Prêmio FNLIJ, categoria Tradução/Jovem em 1996. De Jostein Gaarder, eu já tinha lido O mundo de Sofia, Através do Espelho e A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, de maneira que posso afirmar que já conheço seu estilo narrativo e não tive aquela sensação de surpresa e arrebatamento que procuro despertar em meu interior sempre que abro um livro. Em palavras mais simples, o livro não me surpreendeu, mas me agradou em partes.

O livro conta a história de Hans-Thomas, uma garoto que sai da Noruega com o pai e viaja até a Grécia a fim de encontrar a mãe que os abandonou. No trajeto, Hans e o pai param num posto de gasolina e lá o menino é presenteado por um anão com um pedaço de vidro. O anão explica ao pai do menino o caminho que os levará até a cidade mais próxima. Chegando nessa cidade, Hans vai até uma padaria onde novamente, recebe um presente de um estranho: um pãozinho com um livrinho dentro.

Mais tarde, Hans descobre que o pedaço de vidro que ganhou do anão era na verdade uma lupa para ler o livro em miniatura. E assim que começa a ler, mergulha em uma aventura completamente diferente de tudo que já viveu e descobre que essa leitura está relacionada com sua própria vida.

Os capítulos do livro são divididos a partir do ponto em que Hans obtém o livro. Assim, a história de Hans é intercalada com a história do livrinho misterioso. Num capítulo temos a história contado por Hans, seus diálogos filosóficos com o pai e a descrição dos lugares em que passam e em outro a narrativa que o livrinho esconde.

Como mencionei anteriormente, a leitura me agradou e acredito que isso só aconteceu porque gostei das questões filosóficas que o livro aborda, como esse trecho em especial:

- Talvez exista um Deus que nos entenda. - disse eu.
Meu pai ficou surpreso com o que eu disse. Acho que o fato de eu ter feito um comentário tão inteligente o deixou muito impressionado.
- Sim, é possível - concordou. - Mas nesse caso ele seria tão terrivelmente complexo que seria difícil que conseguisse entender a si mesmo.

 ( O dia do Curinga, pág. 155)

Tirando esses trechos que abordam a filosofia típica de Gaarder, não posso dizer que tive um aproveitamento completo da leitura. Achei a história previsível demais e penso que isso acontece comigo pelo fato de eu já ter lido muitas coisas, assim encontro cada vez menos narrativas que me surpreendem, é tudo mais do mesmo.

Deixando a crítica de lado, continuo gostando de Gaarder e acho que seus livros podem ser mais proveitosos para um adolescente ou uma criança que está começando a se aventurar pela literatura. Já disse aqui no blog que literatura não tem idade, mas acredito que certos livros trazem consigo a magia de determinada faixa etária.

Eu, por exemplo, sou fã da série Harry Potter e já li todos os livros diversas vezes, mas confesso que estou com receio de ler a série novamente e me decepcionar. Quando li HP pela primeira vez, descobri um mundo mágico, mais hoje sou uma leitora muita mais crítica e posso ler com toda essa criticidade, de modo que prefiro guardar a lembrança daquele mundo maravilhoso de J. K. Rowling do que ler de novo e descobrir que não era bem o que eu imaginava.


domingo, 1 de abril de 2012

A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, Jostein Gaarder e Klaus Hagerup


De repente senti muita fome. Não de comida, mas de todas as palavras escondidas naquelas estantes. Mas eu sabia que, por mais que eu lesse durante toda a minha vida, nunca conseguiria ler um milésimo de todas as frases que já foram escritas. Sim, pois há tantas frases no mundo quanto há estrelas no céu. E elas se multiplicam e se expandem continuamente, como o espaço infinito.
Mas ao mesmo tempo eu sabia que, a cada vez que eu abrisse um livro, eu veria um pedacinho do céu. Sempre que lesse uma frase, saberia um pouco mais do que antes. E tudo o que leio faz o mundo ficar maior, ficando maior eu também.

( A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken, pág.148)


De autoria de Jostein Gaarder em parceira com Klaus Hagerup, A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken (Cia. Das Letras, R$ 38,50) é o tipo de livro que dialoga com todos os públicos sem deixar de encantar nenhum.

Nils, um garoto de doze anos, vive em Oslo e passa as férias na cidade de sua prima Berit, em Fjaerland, interior da Noruega. Quando as férias terminam os dois decidem escrever um livro de cartas, remetendo o de uma cidade a outra para continuarem se comunicando.

Quando Nils vai à livraria comprar o diário que se tornára o livro de cartas, conhece uma mulher estranha que oferece dinheiro a ele para inteirar o valor da compra. O menino lembra que já viu essa mesma mulher em Fjaerland e conta para Berit na carta de estreia do livro.

Berit começa a seguir a mulher, descobre que a mesma atende pelo nome de Bibbi Bokken e está envolvida com coisas estranhas, como livros que ainda não foram escritos e uma biblioteca mágica.  A partir daí, a trama conquista o leitor e o incita a descobrir quem é essa mulher e que relação ela tem com a tal biblioteca mágica que é o título do livro, além dos outros enigmas e tramas que a história traz.

É uma história muito bacana, Nils e Berit dialogam sobre diversas coisas em suas cartas, desde literatura, suposições malucas a problemas familiares e coisas do universo adolescente.

De Jostein Gaarder ainda prefiro O Mundo de Sofia, entretando, A Biblioteca Mágica de Bibbi Bokken não fica atrás. Pelo simples fato de falar sobre livros, leitura e biblioteca, já ganhou meu coração!



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Persépolis, Marjane Satrapi

Comprei Persépolis (Companhia das Letras, edição única – R$ 46,00) para o Desafio Literário do mês de outubro, cuja proposta é ler Graphic Novels. Eis que o livro chega pelo correio, abro o pacote como um cão feroz e ignoro os outros livros que adquiri. Não posso esperar outubro. Meu desejo é saber como é o traço de Marjane Satrapi, autora do tão aclamado Persépolis.

Assim começo a folhear o livro e descubro que é uma autobiografia em quadrinhos. Também descubro que Marjane tem uma história de vida muito interessante, viveu em meio a Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã se tornou um país extremamente repressivo e conservador. Viu seus entes queridos serem presos, alguns até mortos em nome de uma liberdade que não usufruíram.

Quando completou 14 anos, seus pais mandaram-na para Áustria, onde aprendeu a viver sozinha e cuidar de si mesma, enfrentando dificuldades que a fizeram sentir vergonha de si mesma por ter deixado seus valores de lado. Depois de quatro anos retornou ao Irã e descobriu um país completamente diferente, retomou sua vida, adaptando-se à nova realidade e se tornou uma nova mulher.

E depois de mais algumas aventuras e desventuras de Marjane, chego ao final do livro. Meus sentimentos em relação à leitura são fortes. O livro me fez rir, chorar, sentir raiva do Irã, raiva de Marjane, ódio de pessoas ignorantes que se tornam cegas perante a religião, ódio de pessoas que usam a religião para manipular, ódio da humanidade desumana e até ódio de mim mesma.

Já disse aqui antes, e agora repito que a leitura é um encontro. Através das personagens, nos encontramos, repletos de qualidades, defeitos, medos e frustrações, afinal, somos apenas humanos, demasiadamente humanos.

Para finalizar a postagem de hoje, faço das palavras de Érico Assis minhas palavras:

“Em meio a toda tristeza da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao revelar o que é ser um civil no meio de uma revolução, de uma transformação cultural violenta e de uma guerra. Um boneco que não pode fazer nada, sujeito aos desígnios de governantes, que parecem insanos. Mas, no clima de terror e incerteza do país, Marji e sua família ainda encontram tempo para rir. São estes momentos, de humor no meio do caos (às vezes um tanto nervoso), que tornam Persépolis imperdível”.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sangue, Ossos & Manteiga - Gabrielle Hamilton

Gabrielle Hamilton possui o título de Mestre em Ficção pela Universidade de Michigan e é a chef do restaurante Prune, localizado no East Village em Nova York. Seus artigos sobre culinária já foram publicados em revistas como a New Yorker, Bon Appetit e Food & Wine. O livro Sangue, Ossos & Manteiga - A educação involuntária de uma chef relutante é a sua autobiografia e foi a minha leitura escolhida para o mês de janeiro do Desafio Literário 2012, cuja proposta é a Literatura Gastronômica.

No livro, a autora narra toda a sua trajetória, desde a infância até o nascimento dos seus dois filhos, mostrando como a culinária sempre esteve relacionada com sua vida, acompanhando-a em todos os momentos.

Na infância, Gabrielle morava numa área rural da Pensilvânia, sua casa e de sua enorme família eram as ruínas carbonizadas de uma fábrica de seda do século XIX. Sua mãe, uma mulher francesa, sabia como extrair tudo o que era comestível dos mais diferentes alimentos, evitando desperdícios e alimentando a família com tudo o que tinha no quintal. O pai não cozinhava, trabalhava como cenógrafo e anualmente oferecia uma grande festa para a vizinhança.

Quando seus pais se divorciaram, Gabrielle decidiu sair de casa e acabou perambulando de cidade em cidade, trabalhando em diversos bares e lanchonetes, envolvendo-se com drogas e outras mulheres.

Depois de enfrentar algumas dificuldades, começou a trabalhar como freelancer em bufês e alguns anos mais tarde, finalmente percebeu que tudo o que fez e tudo o que realmente lhe deu prazer na vida envolvia a culinária, assim abriu o Prune, seu próprio restaurante, com trinta mesas super disputadas e uma equipe competente.

No Prune, além de fazer amigos e conquistar a freguesia, Gabrielle conheceu Michele, seu marido italiano e pai de seus dois filhos.

Sangue, Ossos & Manteiga (Rocco, R$ 39,50) é um livro fácil de ler, possui uma narrativa ágil e bem escrita, recheada de pratos franceses e italianos que dão água na boca! No começo da leitura não demonstrei muita simpatia pelo livro e pela autora, mas conforme a leitura foi fluindo, Gabrielle Hamilton acabou me conquistando com sua história, seus objetivos, seu perfeccionismo, sua nova família italiana e principalmente pela descrição minuciosa de todos os pratos preparados e degustados ao longo de sua vida.

Alguns trechos do livro:

" Adoro como se pode romper a vagem da ervilha, puxar o fio e com isso expor uma linha de junção perfeita que pode facilmente ser aberta com a unha. E então você descobre aquelas bolinhas perfeitas, doces e amiláceas no côncavo de um casulo crocante, aguado e quase açucarado."

"Há duas coisas que você não devia nunca fazer com seu pai: aprender a dirigir e aprender a matar uma galinha. Tampouco tenho certeza se você devia sentar-se em frente a ele e comer a galinha assada sob um silêncio ressentido. Mas também fizemos isso, e a carne, como se de propósito, estava desagradávelmente dura."

"Simplesmente pulara no meio do fogo e abrira um restaurante próprio sem nunca ter sido chef em outro."